A Vice-Presidente da República, Esperança da Costa, enaltece a aposta na educação como chave de sucesso para afirmação das mulheres. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, focada essencialmente na problemática da igualdade de género e representatividade nas estruturas do poder, destacou a importância de políticas públicas, apesar da existência de alguns constrangimentos. Bióloga de formação, com percurso alicerçado na docência e investigação, aborda com clareza as complexas questões ambientais, realçando os tópicos dos mangais, da biodiversidade e Bacia do Okavango.
Acompanhe a entrevista na íntegra:
O público conhece, por intermédio da comunicação social, a académica, a mulher investida em funções públicas e, sobretudo, a Vice-Presidente da República. Como é que apresentaria, na primeira pessoa, a cidadã Esperança da Costa?
É para nós, também, uma grande oportunidade poder estar convosco, conhecer-vos e poder falar um bocado, neste mês que é de todas nós, mas também é do Pai. Somos servidores públicos, servidores do povo e é sempre uma oportunidade também para nós podermos conversar um bocado e perceber melhor a vossa vida no âmbito da comunicação social e poder dirigir-me ao povo angolano. A cidadã Esperança Maria Eduardo Francisco da Costa é angolana, é casada e nasceu em Luanda, no Bairro Nelito Soares. Fez os seus estudos primários em Luanda, na Escola 227, os estudos secundários na Escola General Geraldo Victor, na Vila Alice. Depois, ingressou no Liceu Feminino, o antigo Liceu Dona Guiomar de Lencastre, hoje Nzinga Mbande, até passar para a Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, na altura, Universidade de Angola, onde fez o PUNIV Curto em 1978. Fez a graduação, portanto, a licenciatura em Biologia. Sou bióloga. Depois fiz uma pós-graduação, a parte curricular do mestrado na Universidade Técnica de Lisboa, mais precisamente no Instituto Superior de Agronomia. Devia ter continuado e elaborado a dissertação de mestrado, mas convidaram-me para, em vez disso, conduzir pesquisas e elaborar uma tese de doutoramento. Então continuámos, fizemo-lo e fomos bem-sucedidos. Terminámos o doutoramento na Universidade Técnica de Lisboa. Sou conhecida por ser docente universitária.
Como é que uma figura eminentemente académica se notabiliza na área política?
Esta é uma grande trajectória. Da academia tivemos uma progressão e fomos contactados muito cedo. Ainda era eu monitora, estava no quarto ano da licenciatura em Biologia, quando houve um grande êxodo dos quadros e professores da universidade…
Estamos a falar de que ano?
De 1982, precisa mente. A partir daí, com o êxodo dos quadros que foram para Portugal, houve a grande necessidade de se fazer a cobertura. Começámos a ser convocados especialmente para ingressar nos quadros da universidade. Entrámos, numa primeira fase, como monitores. Eram considerados monitores todos aqueles que tinham terminado o terceiro ano dos respectivos cursos e que tinham de ter uma média de catorze valores. Portanto, fomos convidados e fomos progredindo. Depois, convidaram-nos a chefiar o departamento de Biologia. Nesse momento, já pertencíamos nas lides partidárias, portanto já tinha ingressado na política. Na verdade, foi muito mais cedo ainda na OPA e depois na JMPLA, e daí fomos progredindo, e chegámos a OMA. Chegou uma altura em que fomos chamados, depois de termos alcançado o doutoramento, a assumir a área científica da Faculdade de Ciências. Concomitantemente, o Ministério das Pescas e Ambiente solicitou os nossos serviços para consultoria. Mais ou menos por volta do ano 2000, surgiu uma mudança na Reitoria da Universidade Agostinho Neto. E por esta altura, nós fomos convidados a assumir o cargo de Pró-Reitora para a Expansão Universitária. Embora pareça um cargo académico, não foi só académico. Foi também para tratar de toda a expansão da Universidade Agostinho Neto, e trabalhar na identificação de novas províncias com potencialidades para albergar instituições de ensino superior. Por esta altura, o Governo incumbe a Universidade Agostinho Neto de efectuar um programa de elaboração de redimensionamento da Universidade Agostinho Neto para ser ela a precursora de outras instituições de ensino superior a nível de todo o país. Mais lá à frente, se calhar, conto melhor este percurso. Demo-nos conta de que os desafios eram imensos. Portanto, fomos seguindo, passámos nós pela reinstalação de várias instituições de ensino superior, andámos por todo o país, com excepção da província do Moxico, a avaliar as condições requeridas e adequadas para, no quadro das potencialidades que as províncias apresentavam, conseguirmos elaborar um programa e uma estratégia correcta de implementação das instituições nas várias províncias ou nas regiões do país. Portanto, esse foi o início de todo este processo. Também na esfera política, nós continuávamos a progredir. Logicamente que todo esse processo permitiu que nós fizéssemos uma progressão na própria carreira docente: passar de monitora a Professora Auxiliar, depois Professora Associada, até Professora Titular, que hoje é considerada Professora Catedrática, portanto, o topo. E fomos coabitando, deste modo, sempre pronta para as tarefas que o país nos incumbiu. E aqui estamos nesta posição.
A partir do percurso pode-se aferir que, apesar da elevação do cargo, assumir a função de Vice-Presidente da República não foi propriamente uma novidade em termos de liderança, uma vez que a criação de universidades em diferentes regiões académicas do país tem as vossas impressões digitais.
Naturalmente que sim! Nós coordenávamos uma equipa, mas era uma equipa coesa. Estávamos na coordenação. Tínhamos por trás uma boa coordenação a nível do reitor da Universidade e do Governo que tinha os olhos postos em nós. Tínhamos a missão de não falhar. Então, sim, não é a primeira vez, porque depois de ter sido próreitora para a expansão universitária, esta pasta migrou, por volta do ano 2007, para uma Secretaria de Estado de Ensino Superior, independente do Ministério da Educação, entre tanto, dependente da Presidência da República. Na altura, nós migrámos com a pasta, tendo sido nomeada Directora Nacional de Ensino Superior ao mesmo tempo que fundámos antes uma Unidade de Investigação em Botânica, na área em que me formei. Passámos a liderar este centro de investigação e, mais tarde, veio a nomeação como secretária de Estado para as Pescas. No âmbito desta pasta, assumimos a condução de muitos dossiers até aqui chegados.
Quais foram os grandes desafios que enfrentou enquanto mulher a desempenhar cargos com projecção social?
Foram vários, mas vamos considerar o primeiro, que foi o desafio de integrar os quadros da universidade, já como monitora, com a responsabilidade de ministrar as aulas práticas de uma determinada disciplina. Mais tarde, vim a especializar-me na área. Tinha um professor, um tutor, que coordenava, mas éramos nós que íamos à busca do material. Coordenávamos os trabalhos com os preparadores para elaborar as práticas para os nossos colegas que estavam nos anos um bocado inferiores ao nosso. Esse foi, sem dúvida, um momento particular em que estivemos. Iniciou se e sentimos uma grande responsabilidade. Na verdade, manifestou-se até no meu rendimento escolar que decaiu um bocado. Foi também a altura em que me casei. Assim, surgiram, ao mesmo tempo, um conjunto de factores que, para mim, constituíram, de facto, grandes desafios. Foi necessária muita concentração, muita dedicação.
O outro é, sem dúvida, o de pró-reitora, portanto, vice-reitora para a expansão universitária, porque aí tivemos a responsabilidade de instalar as várias instituições de Ensino Superior. A primeira foi a reinstalação da Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo, que tinha ficado cerca de dez anos paralisada. Então, incumbiram-nos a tarefa e tivemos que encontrar estratégias adequadas para a reinstalar. Primeiro, olhar para as condições infra-estruturais, conceber o plano de reabilitação das instalações da Faculdade de Ciências Agrárias e olhar para o quadro docente. Facilitou-nos o processo termos ido à procura de parcerias fortes. A própria Universidade Técnica, onde me formei, aderiu ao programa.
Juntou-se a nós, numa parceria que foi fundamental para o refrescamento dos docentes que tinham ficado muito tempo sem dar aulas. Seguiu-se todo o processo de preparação dos estudantes que deviam submeter-se primeiro a uma prova de preparação para o ingresso. Infelizmente, nós tínhamos um número não elevado de quadros. Os potenciais candidatos apresentavam-se em número muito superior àqueles que podiam ingressar. Houve todo este trabalho a ser feito para dotar os docentes de melhores capacidades e de mais actualização de conhecimentos. Eles tinham ficado 12 anos fora do sistema, nós preparámos um mestrado denominado “Mestrado em Agronomia, Desenvolvimento Rural e Recursos Naturais”, numa parceria da nossa Universidade Agostinho Neto e a Universidade Técnica de Lisboa.
Esse curso de mestrado foi implementado?
Foi implementado. O mestrado pertencia à Faculdade de Ciências Agrárias, mas como a Faculdade estava a ser reabilitada, transferimos para a Huíla, porque também está universitário e a redimensionar a expansão dos cursos na província. Foi, sem dúvida, um grande desafio. Estávamos preocupados se teríamos os docentes em quantidade para iniciar o curso. Lembro-me de que a Faculdade de Ciências Agrárias fica na Chianga, no Huambo. Para sair da Chianga, onde trabalhávamos diariamente, passávamos pela estufa do Huambo para nos dirigirmos à residência. Na estufa, encontráva-mos estudantes às dezenas, a estudar à luz de velas. Parávamos o carro para conversar um bocado e a pergunta deles era: "Doutora, vai mesmo abrir?" Era o olhar de quem, já muitas vezes, viu ser prometida a reabilitação e reabertura dos cursos, mas o projecto era sucessiva mente adiado devido ao factor guerra. Isso dava-nos mais alento, engajávamo-nos mais. Nós, o governador, a equipa toda. Aconteceu concretamente em 2004.
A par da reinstalação da Faculdade de Ciências Agrárias no Huambo, após doze anos de inactividade, que outros desafios conseguiu ultrapassar?
Constituiu, de facto, um grande desafio termos conseguido reinstalar. Hoje é com grande alegria que regresso ao Huambo e constato que muitos estudantes que ingres saram naquela altura hoje são docentes da própria faculdade. Seguiram o nosso percurso como monitores e foram crescendo. Outros estão na vida política, no Poder Legislativo, no Poder Executivo. Portanto, é uma grande alegria. Este foi um grande desafio, a partir desse momento transferimos a experiência. Depois fomos instalar a Escola Superior Pedagógica na Lunda Norte, onde o grande desafio foram as condições de habitabilidade para os professores que vinham de fora. Não eram missionários, tínhamos que encontrar condições que lhes permitissem alguma comodidade e conforto no âmbito da missão que vinham desempenhar.
Implementámos a Escola Superior de Tecnologias da Lunda Sul e o Polo Universitário do Namibe. Voltámos ao Namibe, outra vez, para a coordenação, no âmbito da implementação da Academia de Pescas e do Mar, que hoje se transformou na denominada Universidade do Namibe. No Bengo, montámos a Escola Superior Pedagógica. Andá-mos pelo Bié, mas decidimos não iniciar os cursos, assim como na Huíla. Estivemos a desenvolver novos cursos em Benguela ligados às engenharias. Criámos vários centros universitários e com instituições parceiras a nível internacional. Foi isso que nos valeu o crescimento do ensino superior em Angola. No âmbito da Secretaria de Estado, acabámos por transformar esses centros universitários em universidades. No Huambo, criámos a Universidade José Eduardo dos Santos, porque lá, para além da Faculdade de Ciências Agrárias, que se virava para a área da produção agrícola e produção animal, também tínhamos instalado um núcleo do curso de Medicina. E lá já funcionava também, no Huambo, o núcleo da Faculdade de Direito, portanto, do curso de Direito e o núcleo de Economia. Os professores para essas faculdades, para esses cursos, saíam de Luanda, das respectivas faculdades-mães, pre-cursoras, e iam dar aulas até que se autonomizaram e tornaram-se também faculdades, em vez de núcleos. Agora temos uma Faculdade de Medicina no Huambo, bem como uma Faculdade de Direito e uma Faculdade de Economia. Reunimos todas as unidades numa só instituição designada Universidade José Eduardo dos Santos, que está com outros vice-reitores e directores. E muitos técnicos fixaram-se no Huambo. Outro quadro de referência é o Director do Centro de Alterações Climáticas, de feliz memória, o professor Joaquim Laureano. Estamos aqui nesta posição, mas passámos por todos estes momentos, bastante desafiantes. Pensávamos: "vamos mesmo conseguir?" E as pessoas diziam: "ela é tão nova, como é que vai conseguir reinstalar a Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo, um projecto que ninguém conseguiu? Por que razão estão a fazer isto à senhora?"
As dúvidas deviam-se ao facto de a Faculdade de Ciências Agrárias ter ficado 12 anos inactiva ou por ser mulher?
Pois, lá está. Podemos todos testemunhar o crescimento da Universidade José Eduardo dos Santos, onde os cursos de mestrado continuamactivos e onde as parcerias cresceram. Hoje recebeu um Centro de Excelência, um mestrado e um doutoramento que já é internacional. Frequentam o doutoramento, financiado pelo Governo da Alemanha, estudantes da Zâmbia, Botswana e África do Sul. Por tanto, naquele que é designado o Projecto da SASSCAL (...), ligado ao estudo das alterações climáticas na região da África Austral e que colocou um Centro de Excelência no Huambo. A província ganhou maturidade, diferenciação do quadro docente, parcerias em linhas de investigação voltadas às potencialidades e desenvolvimento económico da região. Estão no caminho certo, e é preciso continuarmos a investir no reforço da capacidade institucional.
Qual foi a primeira sensação ao ser indicada para Vice-Presidente da República?
Foi uma grande surpresa, confesso. Na época, era secretária de Estado. Chegámos a membro da direcção do nosso partido e tivemos a surpresa de ter sido anunciada para o cargo de Vice-Presidente da República.
Outros sentimentos a par da surpresa?
Senti surpresa e uma sensação de incredulidade também. Depois foi o de enquadramento, e de um olhar para aquilo que somos no partido e pensar que o militante do partido tem que estar preparado para todas as tarefas que lhe são acometidas. E para o militante de direcção do partido, a prontidão tem que ser total para as tarefas que tiver de assumir. Olhar para trás, ver o per curso, os desafios que tinha enfrentado e dizer: "bom, mas não tem nada a ver". Dizia para mim, estou tão bem aqui no sector das pescas, o que é que eu vou fazer lá? Foi preciso engajarmo-nos, pois é um cargo de elevada responsabilidade. Termos sido indicados pelo Presidente do Partido e termos merecido a confiança do nosso povo eleva o nosso sentido de responsabilidade e compromisso. Dispusemo-nos logo a servir este povo de um modo abnegado, com elevada responsabilidade, compromisso, dedicação e com patriotismo.
A propósito de ser a mulher que atingiu o cargo mais alto a nível da governação em Angola, qual é a análise que faz da presença feminina nas estruturas do poder em Angola e no mundo em geral?
Penso que as mulheres têm tido, em Angola, um impacto positivo, apesar dos muitos desafios que ainda enfrentam. Sem dúvida, olho para as mulheres ligadas à liderança feminina em Angola e encontro boas referências. Têm um trabalho notável em termos de empenho e concretização dos objectivos. Penso que há sempre alguns constrangimentos, mas no geral, para mim, a visão é positiva a nível internacional. Vejo mulheres de destaque como a Angela Merkel, a ex-chanceler na Alemanha, a avaliar o desempenho nos sucessivos mandatos que teve. Há mulheres que se engajaram e têm um papel determinante na transformação das sociedades. Estamos no bom caminho. As mulheres já travam esta luta há muitos anos, há séculos. O histórico das mulheres em Angola, a nível da resistência, é colonial. Tivemos a Nzinga Mbandi neste percurso. Outras trabalharam de forma diferente, como Lueji A Nkonde, mas tudo a convergir para que a mulher se impusesse e conduzisse positivamente os desígnios das missões que lhes tinham sido incumbidas.
Enquanto Vice-Presidente da República, que importância atribui às políticas públicas para a concretização do empoderamento feminino?
As políticas públicas que estão a ser implementadas em Angola são fundamentais para a consolidação do papel da mulher. Esta enfrenta imensos desafios para ultrapassar as barreiras e posicionar-se nas várias áreas, em diferentes dimensões da vida nacional que são dominadas praticamente por homens e onde a posição da mulher é sempre vista secundariamente. As políticas públicas vêm reforçar e traduzem o compromisso do Executivo na valorização da mulher. Se olharmos para a política de igualdade e equidade de género, a Lei sobre o Combate à Violência contra a Mulher são leis que permitem, digamos assim, alguma oportunidade e mais respeito para a mulher, mais valorização e, de alguma forma, a sua melhor inserção na sociedade. Ainda assim, sentimos que ainda não são eficazes na totalidade, porque persistem as desigualdades estruturais que limitam a nossa participação efectiva na transformação da sociedade. A mulher ainda tem limitações em termos de acesso à terra, aos mercados, ao crédito, às tecnologias e à educação. Temos investido no sentido de que a mulher tenha sempre um lugar e uma percentagem para a formação, incluindo para pós-graduação. E temos tentado sensibilizá-las mais para os cursos da área tecnológica de modo a poderem dominar a tecnologia. Olhamos para políticas que elevam o empoderamento da rapariga, por exemplo, no âmbito do Projecto PAT 2 (Programa de Empoderamento da Rapariga e de Aprendizagem para Todos). Que remos políticas que retirem esses estereótipos e alguma segregação e condições estruturais que impedem a rapariga de permanecer na escola, como a questão da gravidez precoce, que continua a ser um problema. O abandono escolar elevado. A rapariga é uma criança e vai muito cedo também tomar conta de outra criança, isso limita a sua perspectiva de vida e contribuição no desenvolvimento da sociedade. É um conjunto de políticas que ainda precisamos de implementar. Permanece a questão da agressão sexual das raparigas. Temos que romper com esta prática. Portanto, temos que encontrar formas a nível da criminalização, políticas que, mais assertivas, possam eliminar essas práticas e deixar as nossas raparigas crescer, deixar as nossas crianças terem vida, terem a infância que nós tivemos para poderem sonhar. Olhar para nós, para si, para mim, para outras e dizer: "Eu quero chegar ali onde aquelas senhoras chegaram".
“A família é o pilar central da sociedade, o núcleo da sociedade. Nós, mulheres, temos de nos compenetrar de que temos responsabilidades. Apesar dos deveres profissionais, temos as tarefas do lar. Só podemos desempenhar bem as nossas tarefas profissionais se tivermos harmonia no lar. Este é para mim o meu compromisso com a família.”
Por ser mulher, como é que acha que pode inspirar positivamente o processo de mudanças?
Temos ainda muito trabalho a fazer. Por isso, estamos a influenciar nesse sentido. A questão do crédito à mulher tem sido uma preocupação. Há mulheres que desempenham um papel importante no âmbito das suas comunidades, no que diz respeito à autogeração de recursos financeiros e elevação de renda para as famílias locais. Estamos a influenciar o processo de mudanças.
Quais são as grandes conquistas que obteve e qual o segredo para conseguir realizar os seus sonhos? A cidadã Esperança da Costa tem consciência de que é inspiradora para outras mulheres?
Vamos lá ver se conseguimos enquadrar a resposta no sentido lato em que fez a pergunta. A nível pessoal, é mesmo ter chegado à maternidade, ter a família constituída, manter o matrimónio. Este é fundamental para nós. A nível profissional, ter chegado até aqui. Penso que ninguém nasce a sonhar ser Vice-Presidente da República. Os meus sonhos eram mais dirigidos a ter uma participação efectiva na sociedade. Enquanto docente, a minha pergunta era: o que é necessário para progredir na carreira? Tenho que fazer o mestrado. Então fiz o mestrado. Tenho que fazer o doutoramento. Vou fazer o doutoramento e chegar ao topo da carreira. Nunca me neguei a formação nenhuma. Todas as oportunidades que tive de formação, e não foram poucas, foram aproveitadas. Sempre com muita disciplina e muita responsabilidade. Aliás, fomos educados assim. Se diz sim a uma tarefa, vai cumpri-la na íntegra. É deste modo que consideramos que as nossas realizações possam inspirar as raparigas e as outras mulheres.
Terá algumas palavras de incentivo para as mulheres, principal mente às raparigas mais novas que realçou?
Consideramos que a nossa presença aqui é um marco para as raparigas, para a juventude, para as mulheres, que olham para nós um bocado a interrogar-se sobre "o que é que ela vai fazer?" Aqui estamos a trabalhar, a olhar para as tarefas que nos são incumbidas por Sua Excelência, o Presidente da República, cumpri-las na íntegra com zelo e olhar para aqueles que são os pilares centrais do desempenho de uma Vice-Presidente da República. As raparigas, a juventude, no geral, olham para nós como as líderes deste país. A juventude que se com penetre que para ter um bom desempenho precisa de estar preparada. A preparação é fundamental para que o desempenho seja com êxito. O apelo que faço é que não abdiquem da formação em momento algum. Ultrapassem as dificuldades. Compenetrem-se de que só com formação podem liderar o país. É possível obterem conhecimento que vai, sem dúvida, impactar positivamente no desenvolvimento do país. Não tenham pressa, não se deixem levar por práticas desviantes. Sejam responsáveis e patriotas. Cultivem a fraternidade e a solidariedade. Amem o nosso País, a vossa Nação.
Disse que o casamento representa um marco na vossa vida. Qual é a importância da família e que lugar ocupa na vida da senhora Vice-Presidente da República?
Presidente da República? A família é o pilar central da sociedade, o núcleo da sociedade. Nós, mulheres, temos de nos compenetrar de que temos responsabilidades. Apesar dos deveres profissionais, temos as tarefas do lar. Só podemos desempenhar bem as nossas tarefas profissionais se tivermos harmonia no lar. Este é para mim o meu com promisso com a família. Ou seja, participar da estrutura organizativa da família, estabelecer rotinas e procedimentos que garantam a harmonia no lar. Por outro lado, a família, para nós, tem sido um grande apoio. Sempre tive muita colaboração da minha família, que criou o espaço para que eu pudesse ter o conforto e pudesse dedicar-me plenamente ao desenvolvimento das actividades que me são acometidas. Cultivar o amor, o carinho pelo próximo, encarar a família com olhos de protecção e temos que defender este espaço. O espaço é nosso, é de coabitação, de comunhão e de cumplicidade. É, igualmente, de reciprocidade em termos de tarefas, de trabalho, de cuidar dos filhos e da própria residência. Enfim, de ter as coisas prontas para que a família tenha harmonia.
Além do percurso humano e político, as questões ambientais ocupam uma dimensão estratégica do mandato da Vice-Presidente. Que enquadramento faz dos tópicos mangais, biosfera e Bacia do Okavango?
As questões ambientais constituem preocupação global das agendas governativas do mundo. E esses três tópicos são centrais na governança ambiental em Angola. Por quê? Porque lidam com mangais e o Okavango é a componente de conservação da biodiversidade, fundamental da resiliência climática. Por outro lado, insere-se aí a questão da acção climática. Temos de continuar a olhar para os mangais, que são um ecossistema fundamental no quadro da preparação dos países para as alterações climáticas. E são florestas verdes que já as conhecem, posicionam-se desde o Norte do país e esbatem se na zona de Moçâmedes. Por que razão são importantes? Porque estão na confluência do mar e dos rios, protegem as nossas costas marinhas para que não nos aconteçam tsunamis, como se verifica em outras partes do mundo. São ecossistemas de elevada produtividade. São, sem dúvida, áreas onde os peixes, crustáceos e molus cos encontram condições próprias e adequadas para poderem efectuar a reprodução. Tanto são ecossistemas que também são constituídos e considerados como os grandes sumidouros de carbono e, por isso, fundamentais para a regulação do clima, a redução das emissões e para reter, digamos assim, a elevação da temperatura. Por outro lado, o Okavango é uma grande iniciativa de gestão, preservação e conservação ambiental. É das maiores iniciativas transfronteiriças a nível da África Austral. Integra cerca de cinco países da África Austral, nomeadamente Angola, a Zâmbia, o Zimbabué, o Botswana e a Namíbia. Trata-se de um santuário onde nos reencontramos. É um grande número de espécies que considerávamos já em vias de extinção, quer no lado de Angola, quer no lado do Botswana. As nossas populações de elefantes estão de volta. As populações de rinocerontes da Zâmbia estão de volta em grande número. A iniciativa salvaguarda não só a partilha dos recursos hídricos e a conservação da biodiversidade, mas também a partilha de prosperidade, salvaguarda da estabilidade e da paz das comunidades a nível da África Austral. Sobre a questão da biosfera, urgia a Angola integrar a Rede Mundial da Biosfera da UNESCO. Portanto, fizemos o trabalho de casa a nível do Parque Nacional da Quiçama, que é um parque que tem uma elevada característica em termos de biodiversidade, tem vários biomas e ecossistemas, tendo, ao mesmo tempo, zonas de mangais, savanas, planícies e um elevado gradiente ecológico. Então, o Parque da Quiçama é rico em unicidade e raridade de espécies.
Poderia enumerar vantagens para a economia e desenvolvimento do país geradas a partir do dossier ambiental?
Espécies consideradas valiosíssimas no âmbito económico. Há ali uma grande comunidade que é a guardiã de toda essa biodiversidade e também deve ser incluída. Devem ser criados empregos verdes para esta população, particularmente para a juventude, para que possam crescer e integrar o processo de conservação da biodiversidade, de modo a que tenhamos uma Angola capaz de, cada vez mais, influenciar positivamente no trade-off de acesso aos financiamentos para a biodiversidade. A conservação da biodiversidade em geral, nos vários biomas que o país integra, colocanos num patamar privilegiado para lidar com as novas agendas a nível do nexo biodiversidade, segurança dos sistemas alimentares, bem como a questão da água e da energia. Pensamos que estamos bem e vamos continuar a trabalhar todos juntos para que o nosso país possa prosperar com toda essa riqueza natural que possui, sem perder de vista a sustentabilidade.