DISCURSO

Discurso de S.E. Bornito de Sousa, Vice-Presidente da República de Angola, no 1º Encontro Nacional sobre o Ensino da Engenharia em Angola.

“ENGENHARIA, FORMAÇÃO DE ENGENHEIROS E DESENVOLVIMENTO NACIONAL SUSTENTÁVEL”

 

– Luanda, 13 de Julho de 2021. –

 

 

Excelência, Dr. Manuel Nunes Júnior, Ministro de Estado para Coordenação Económica do Presidente da República;

Excelência, Dra. Maria do Rosário Bragança Sambo, Ministra do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação;

Excelência, Dra. Ana Paula de Carvalho, Governadora da Província de Luanda;

Excelência, Engenheiro Paulino Neto, Bastonário da Ordem dos Engenheiros de Angola.

Excelências,

Distintos convidados e participantes,

Minhas senhoras e meus senhores,

Antes de mais, quero exprimir a elevada honra pelo convite que me foi dirigido para fazer a intervenção de abertura deste magno evento que constitui um marco de superior importância para o ensino da Engenharia em Angola.

Foi-me proposto abordar o tema: “ENGENHARIA, FORMAÇÃO DE ENGENHEIROS E DESENVOLVIMENTO NACIONAL SUSTENTÁVEL”.

Tendo em conta os objectivos propostos, nomeadamente a partilha de experiências sobre o ensino da engenharia para as diferentes realidades académicas do país, a análise crítica e positiva sobre as características do ensino da engenharia e da formação de engenheiros em Angola, bem como o papel destes profissionais no desenvolvimento sustentável da sociedade angolana, estou convencido de que este evento marcará um virar de página na abordagem e no entendimento da própria engenharia no nosso país.

Por outro lado, sendo o Relatório da UNESCO sobre o ensino da Engenharia, uma peça fundamental do Encontro, estou confiante de que bons resultados advirão dos debates em torno do mesmo, principalmente do capítulo das Conclusões e Recomendações, pois muitas delas, senão todas, tocam-nos, directa ou indirectamente, enquanto país.

Excelências,

Minhas senhoras e meus senhores,

Buscando algumas aproximações conceptuais, registei a que considera Engenharia, “a profissão em que se adquire e se aplicam os conhecimentos matemáticos e técnicos na criação, aperfeiçoamento e implementação de utilidades que realizem uma função ou objectivo, tendo em conta a sociedade, a técnica, a economia e o meio ambiente.” É também “a aplicação do conhecimento científico, económico, social e prático, com o intuito de inventar, desenhar, construir, manter e melhorar estruturas, máquinas, aparelhos, sistemas, materiais e processos.”

Engenharia abrange um leque bastante amplo de áreas ou ramos, tais como a Engenharia Civil, Militar, Sanitária, de Transportes, de Minas, de Materiais e Metalurgia, Química, Nuclear, de Produção, Naval e Oceânica, Aeronáutica e Aeroespacial, Eléctrica e Electrónica, Informática, da Computação e do Software.

Abrange outras áreas como a Ambiental, Biomédica, Agrícola e Florestal, de Pesca, de Alimentos, Industrial e Mecatrônica, de Petróleo e Gás, de Segurança do trabalho, Cartográfica, de Telecomunicações e Engenharia de Gestão.

É inegável, por isso, o carácter transversal da Engenharia a praticamente todos os sectores e áreas da vida e actividade humanas e dos Estados.

Angola é um país abençoado por inúmeros recursos e com uma população bastante jovem, que tem grande necessidade e potencial para a formação e desenvolvimento das Engenharias. E mais ainda, quando Angola inicia necessariamente um caminho rumo à MODERNIZAÇÃO TERRITORIAL E URBANA, perspectiva que acredito não se deixar de fora na abordagem das “Visões” a que alude a Primeira Mesa Redonda deste Encontro, para a qual a Engenharia terá de contar com a contribuição de áreas como a Arquitectura, Urbanismo e Paisagismo, o Planeamento e a Gestão Inteligentes de Municípios e Cidades ou a Ciência Regional.

Isso exige Quadros ou, no caso, Engenheiros muito bem qualificados.

Mas ter Engenheiros altamente qualificados exige um sistema de Educação e Ensino de EXCELÊNCIA.

Um Sistema que privilegie a formação tecnológica e profissionalizante e a empregabilidade das formações e que gere especialistas que produzam obras duradouras e de qualidade, em vez das ditas ”obras de esferovite”, e que saibam combinar a evolução e a modernidade com os valores positivos da cultura e tradição ancestrais angolanos.

Um Sistema que favoreça e estimule a cooperação entre as Universidades e Institutos Nacionais com as melhores Universidades do mundo, bem como com as Empresas nacionais, os Governos Locais, as Instituições de formação técnico-profissional e as ordens profissionais, como a Ordem dos Engenheiros de Angola, numa perspectiva de conferir maior qualidade e fiabilidade às obras realizadas no nosso país.

Um Sistema estruturado desde a Educação Pré-Escolar até à Universidade num formato STEMMEAA (Science, Technology, Engeneering, Mathematics, Medical Sciences, English, Agro-Sciences and Arts) , no sentido em que já aponta o PLANO NACIONAL DE FORMAÇÃO DE QUADROS, parte da Estratégia Nacional de Formação de Quadros, na relação entre o ensino da Ciências Exactas e Tecnologias, por um lado, e, por outro, as Ciências Sociais.

O ensino das Engenharias depende, como todo o ensino superior, do investimento e da qualidade dos níveis anteriores, nomeadamente do Ensino pré-escolar, do Ensino Primário e do Ensino Secundário.

A propósito, é uma experiência a considerar a iniciativa sobre promoção do gosto da aprendizagem das ciências e tecnologias desde o Ensino Primário, intitulada “Uma Viagem ao Mundo da Ciência, Tecnologia e Inovação”, promovida pelo então Ministério da Ciência e Tecnologia em parceira com o da Educação e que destacava a Matemática, a Física, a Química, a Biologia e as Tecnologias de Informação.

A par disso, urge abandonar o modelo de Ensino europeicentrado ou “ocidental-centrado”, que atrofia a verdadeira dimensão geográfica de África, que exalta a escravatura na formação da consciência do aluno e minimiza civilizações africanas da antiguidade que influenciaram o mundo actual, e as contribuições de grande alcance científico e tecnológico da autoria de africanos e africano-descendentes.

Importa também publicitar e apoiar a execução e aplicação dos projectos de angolanos de sucesso, nomeadamente dos que tem sido premiados em Feiras internacionais de Inventores.

Mas, como para tudo, a formação de bons Engenheiros depende também da qualidade e excelência do PROFESSOR.

Nesta equação, aparentemente complexa, cuja incógnita representa a busca por soluções para os problemas dos angolanos, o Professor é uma variável determinante que deve ser dignificada, valorizada, respeitada e acarinhada.

Temos que continuar a apoiar as medidas que estão a ser tomadas pelo Executivo no sentido de cada vez mais posicionar o Professor como a figura central de todo o sistema de educação e ensino, nomeadamente no sentido de exigir a formação superior para os professores de todos os níveis, desde o Pré-Escolar, e fazer, com a adição da agregação pedagógica, o aproveitamento dos milhares de jovens licenciados mas sem emprego.

Sem o Professor não temos operários e especialistas, médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, juízes, advogados, economistas, contabilistas, jornalistas ou arquitectos.

Sem ele, tão-pouco temos funcionários administrativos, mecânicos, correctores de seguros, reguladores de trânsito, ministros eclesiásticos, ministros, deputados ou quem vos fala.

Sem o Professor… não há Engenheiros.

Excelências,

Minhas senhoras e meus senhores,

Da parte do Executivo liderado por Sua Excelência João Manuel Gonçalves Lourenço, Presidente da República de Angola, existe plena consciência de que a formação de qualidade dos engenheiros está intrinsecamente ligada ao sucesso do processo de desenvolvimento sustentável do nosso país.

A Engenharia deve, assim, servir e contribuir para resolver os problemas concretos dos cidadãos, das empresas e instituições, das comunidades, do país e mesmo, problemas globais.

Por exemplo:

»» Os “eternos” engarrafamentos da Província de Luanda não têm solução?

»» As inundações em Luanda aquando das chuvas não tem solução?

»» As comunidades rurais têm de viver às escuras num país repleto de Sol e rios permanentes para produção de energia limpa? Não tem solução?

»» A produção de vacinas que levava anos foi feita em meses para a COVID-19. E para a malária? E para o VIH/SIDA? E para o gado? Não tem solução?

»» Num país rico em madeiras, a produção de mobiliário escolar essencial não tem solução?

»» As consequências da seca cíclica nas Províncias de influência desértica no sul de Angola não têm solução?

Sobre esta última questão, depois de longos anos em que se privilegiou o assistencialismo circunstancial às populações locais e aos animais, assistimos hoje a soluções estruturantes na Província do CUNENE que, fazendo proveito de cursos de água permanentes, poderão finalmente resolver de modo sustentado problemas como a distribuição de água para consumo humano e animal, a irrigação de espaços agrícolas e o abastecimento de assentamentos urbanos.

Durante a recente visita de Sua Excelência, o Presidente da República à Província do Cunene, pudemos todos confirmar, e com muito orgulho, a presença de técnicos angolanos, alguns dos quais engenheiros, nas obras construção de infraestruturas hidráulicas para enfrentar a seca na região sul do país.

Esta nos parece ser uma boa ocasião para assinalar a participação de dezenas ou até centenas de engenheiros angolanos, muitos deles ainda muito jovens mas bem preparados, nas grandes obras em curso no nosso país.

Pudemos constatar isso mesmo, durante recente visita que efectuamos à Província de Cabinda, onde decorrem as obras do porto de águas profundas do Caio e no terminal marítimo de transporte de passageiros e visitas às obras de construção de importantes barragens hidroeléctricas no território das Províncias do Cuanza-Norte e de Malanje.

Excelências,

Minhas senhoras e meus senhores,

Depois do período de Reconstrução, Angola tem de alinhar-se com as Agendas nacional, africanas e globais, de desenvolvimento e MODERNIZAÇÃO como o PLANO DE DESENVOLVIMENTO NACIONAL 2018-2022 e projectos subsequentes, a Estratégia ANGOLA 2025/2050, o Plano Nacional Estratégico da Administração do Território “PLANEAT 2025”, o Projecto de Digitalização de África “SMART ÁFRICA 2014”, a Zona de Comércio Livre Continental Africana, a Plataforma de SENDAI sobre desastres 2030, a Agenda ÁFRICA 2060 e os OBJECTIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 2030.

Angola tem que superar os desafios actuais, de água, luz eléctrica, comunicações, disponibilidade de alimentos, mas alinhar-se a um mundo em rápida evolução tecnológica, que já ensaia a tecnologia 6 G, os voos espaciais turísticos, Internet das Coisas, Inteligência Artificial, a armazenagem em nuvem de Zettabytes ou Yottabytes de informação, a impressão 3D de edifícios de habitação ou de órgãos humanos, os Robots industriais, civis e militares, as Smart Cities, o uso do Grafeno, a “ressuscitação” de mortos através de técnicas criogênica, a clonagem de seres vivos, as consultas, diagnóstico e operações remotas, as viaturas e aeronaves não tripuladas.

Ao mesmo tempo que soluciona problemas actuais de mobilidade e do tráfego urbano, Angola deve alinhar-se a um mundo onde veículos espaciais atingem a “modesta” velocidade de 8 Km/s ou 27.000 Km/h, e os Hyperloops que me permitiriam, por exemplo, chegar mais cedo de Benguela a Luanda, que chegar ao Centro da Cidade Capital, vindo do Kilamba de carro.

Olhemos para frente.

Temos necessidade de formar o Professor 4.0 e criar a Escola 4.0, para formar as crianças de hoje, Engenheiros do futuro, que nascem já com os olhos abertos, fazem uso de gadget nos primeiros anos de idade e são quem vai fazer acontecer a Angola de 2050 e da 4ª Revolução Industrial.

O tempo urge!

O futuro é ONTEM!

Declaro aberto o ENCONTRO NACIONAL SOBRE O ENSINO DA ENGENHARIA!

Bem-Haja a todos e bom trabalho.

Muito Obrigado!


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